T E N D Ê N C I A

O admirável mundo novo dos defensivos

Muitas vezes rotulados como os vilões do campo, hoje os produtos fitossanitários assumem uma nova postura e mais do que nunca podem ser considerados grandes aliados do produtor rural. O uso consciente desses produtos – associado a tecnologias de ponta que resultam em baixos índices de toxidade e preservam o meio ambiente – é a tônica do momento

Ana Esteves

Uma revolução onde a principal arma é a tecnologia. Essa é a melhor forma de definir o processo de mudança que tem caracterizado o setor de defensivos agrícolas brasileiro. As marcas destas transformações funcionam como símbolos de uma nova visão de mercado e de uma agricultura mais moderna, marcada pela competitividade acirrada, por consumidores mais exigentes e uma preocupação cada vez maior com as questões ambientais. Essas transformações vão desde a criação de embalagens modernas que se desmancham na água e protegem o agricultor de um contato direto com o produto e de possíveis acidentes ambientais, até defensivos com baixos índices de toxidade.
As mudanças estão ocorrendo no campo, onde produtores buscam conhecimentos sobre aplicação e uso consciente dos produtos fitossanitários e também se pratica o Manejo Integrado de Pragas (MIP), uma nova filosofia de tratamento das lavouras. São notadas ainda no âmbito legislativo, com a criação de novas leis que visam regulamentar o processo de devolução das embalagens vazias dos pesticidas, e no processo de fabricação de novos produtos. No admirável mundo novo dos defensivos agrícolas, a tecnologia é a força motriz que alimenta a mudança. “A evolução para produtos com menos impacto ao meio ambiente sempre foi uma tendência mundial, mas só agora é que temos à disposição os recursos tecnológicos que proporcionaram a descoberta de novas formulações e novas embalagens”, avalia o diretor de marketing da Bayer, Peter Ahlgrimm.
Para o engenheiro agrônomo da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), Marçal Zuppi da Conceição, nos últimos dez anos, foram realizados grandes avanços na área dos produtos fitossanitários, com a introdução de novos ingredientes ativos, mais seguros para o homem e o meio ambiente. “A evolução dos herbicidas através dos anos é muito clara. Se elegermos como parâmetro as doses de recomendação dos diversos produtos com registro no Brasil e compararmos os produtos lançados na década de 60 com os que chegaram ao mercado nos anos 90, constataremos uma redução da dose de aplicação em cerca de 94%”, explica.
A situação dos fungicidas não é diferente. “A tendência de redução de doses é resultado de um trabalho consciente e pertinaz das áreas de pesquisa da indústria, que busca defensivos mais eficientes e ao mesmo tempo menos tóxicos e agressivos ao meio ambiente”. Zuppi declara que, quanto aos aspectos toxicológicos, os inseticidas, de modo geral, sempre representaram a classe de produtos com maior toxidade, o que levou ao sucesso as intensas pesquisas na busca de ingredientes ativos menos tóxicos. “A combinação dose menor e menor toxidade tem influência direta na diminuição do impacto ambiental provocado por estes novos produtos”, afirma. Nesse caso é importante salientar a substituição dos organoclorados por produtos menos persistentes. Ele relembra que há cerca de 30 anos predominavam no mercado os produtos da classe vermelha, ou seja, mais tóxicos. Hoje o quadro se inverteu e os rótulos verdes são a maioria. “Em 1995 tínhamos 85 princípios ativos verdes, hoje eles saltaram para 130”, destaca.
Conforme o engenheiro agrônomo e professor do Departamento de Entomologia da Unesp/Botucatu, Wilson Crocomo, embora ainda estejamos utilizando alguns defensivos agrícolas de primeira geração, os produtos químicos mais modernos vêm mudando sua natureza tóxica, assim como seu modo de ação. “Os primeiros defensivos eram muito perigosos devido a sua ação neurotóxica e à ignorância do seu risco pela maioria da população, o que provocava muitos acidentes e problemas. Atualmente, essa situação melhorou bastante, inclusive porque o nível de conhecimento das pessoas com relação aos defensivos aumentou”, ressalta Crocomo.
Paralelamente, a indústria começou a desenvolver novas formulações, mais seguras, e novas substâncias químicas de ação em outros pontos da fisiologia das pragas, menos perigosas ao homem e animais. “Hoje já existem no mercado defensivos químicos menos tóxicos do que o sal de cozinha e o açúcar, por exemplo”, esclarece.
O especialista em entomologia destacou ainda que, com as novas tecnologias, as indústrias estão desenvolvendo grãos solúveis em água, com grau de toxidade muito baixo e que podem ser aplicados em menor quantidade nas lavouras. “Os produtores que antes usavam até dois litros de um defensivo, que poderia intoxicá-lo com apenas uma colher de sopa, hoje utiliza no máximo 30 gramas de princípio ativo por hectare, que só prejudicaria a saúde se usado além de dois quilos”, compara.
Atualmente, avalia Crocomo, com os novos produtos e a evolução do conhecimento nessa área, o defensivo agrícola passou a ser visto como uma ferramenta, que quando bem utilizada, é um grande aliado do agricultor. “O defensivo é como um bisturi, um instrumento de grande utilidade na mão do médico para aliviar o sofrimento humano, que, no entanto, em mãos erradas pode ser uma arma mortal. Ele, assim como qualquer outro produto químico, é uma ferramenta de grande valor para a humanidade, no entanto – assim como a eletricidade, o automóvel e tantas outras facilidades da vida moderna – exige responsabilidade e conhecimento para seu emprego”, opina.

Embalagem e educação

As novas tecnologias também estão trazendo transformações para o setor de confecção de embalagens para defensivos agrícolas. “O grande avanço nessa área foi a introdução do saco hidrossolúvel, feito de um material conhecido como PVA, ou Álcool Poli Vinílico. Ele possui uma grande resistência mecânica, similar ao polietileno e é totalmente solúvel em água”, explica Zuppi. Desta forma é possível diminuir a exposição do aplicador ao produto, já que ele não precisa abrir a embalagem para preparar a calda. Além disso, esse tipo de saco facilita a dosagem, pois já contém a quantidade exata do produto para a aplicação na lavoura. “Outra vantagem é que a embalagem hidrossolúvel elimina o problema da destinação final, prevista pela Lei Federal 9974, de junho do ano passado, que institui novas obrigações à indústria, revendas e produtores rurais e punições para quem desobedecê-la”, declara Zuppi.
Na verdade, de nada valeria a tecnologia se não houvesse a educação do homem do campo. “Existem três alicerces que fazem com que essas mudanças se concretizem: legislação, engenharia e educação. Uma complementa a outra”, contrapõe o agrônomo da Andef. Quando a tecnologia ainda não está disponível é a informação e o treinamento que realizam o trabalho. Um caso típico, que ratifica a opinião de Zuppi é o da tríplice lavagem. “As embalagens, metálicas, plásticas e de vidro não foram totalmente substituídas pelas hidrossolúveis e por isso continuam sendo um problema. A solução está sendo a campanha da tríplice lavagem, que busca conscientizar o agricultor da importância de eliminar resíduos tóxicos que permanecem nas embalagens vazias”.
A entidade não tem medido esforços para aproximar os agricultores dos conhecimentos dos engenheiros agrônomos. “Hoje contamos com mais de 14 mil profissionais que têm o papel de multiplicadores, levando técnicas de manuseio e utilização para os produtores diretamente no campo”. Segundo ele, o agrônomo configura o elo entre o anseio e a realidade do campo. Sua participação no processo representa o grande fator de segurança, porque ele é quem avalia as alternativas para o uso de produtos fitossanitários, define os tipos mais seletivos e formulações que reduzem o risco de toxidade e de menor impacto ambiental.

MULTINACIONAIS INVESTEM PESADO

Ao mesmo tempo em que os produtores rurais recebem orientações no campo sobre a melhor forma de utilizar os defensivos e aplicam técnicas revolucionárias como o Manejo Integrado de Pragas, as empresas dão o seu toque no processo de transformação e fazem investimentos pesados para o desenvolvimento de pesquisas básicas e aplicadas na área de produtos e embalagens.
Só no Brasil, o investimento por ano em tecnologia chega aos US$ 50 milhões. Não é à toa que muitas delas chegam a lançar até sete novos produtos por ano, como é o caso da Basf. “Em maio lançamos dois fungicidas para a cultura do trigo, o Caramba e o Corbel, além do acaricida Cascade para o mercado de citrus. Ainda neste ano lançaremos outros quatro produtos para hortifruticultura, milho e cana-de-açúcar”, informa o diretor de negócios da divisão agro do grupo Basf, Wilson Hernandez. Com o novo produto para a cana, o Plateau 70 DG, a Basf dá a largada para conquistar 10% do mercado de defensivos para a cultura nos próximos três anos. Trata-se de uma estratégia agressiva da empresa alemã no setor sucroalcooleiro.
Hernandez afirma ainda que todos estes produtos têm uma característica em comum: baixa toxidade. “Eles apresentam novas formulações, menos residuais e podem ser utilizados em menos quantidade no campo”, reforça. A empresa desenvolve seus produtos sempre preocupada com os anseios dos agricultores. “Eles querem soluções de baixo custo e toxidade e alta eficácia, e é isso que nós procuramos produzir”, completa. Com a aquisição da Cynamid, no ano passado, a Basf subiu para segundo lugar no ranking, com um faturamento em 2000 na ordem de US$ 346 milhões no setor agro brasileiro. “A expectativa para este ano é permanecermos com valores similares”, estima Hernandez.
Somando forças — Na onda de fusões e aquisições, o destaque deste ano será com certeza a negociação para compra da Aventis CropScience pela Bayer. “Ainda não está nada definido, mas se a transação se concretizar trará benefícios para ambas, pois irá agregar produtos, reforçando principalmente a participação da Bayer no segmento de herbicidas, acirrando a competitividade”, declara o gerente de marketing da Bayer, Peter Ahlgrimm. Caso a compra realmente se efetive, ela passaria a ser líder mundial no setor de agroquímicos. “Temos exclusividade no negócio, o que não significa que ele já esteja finalizado”, destaca Algrimm. Conforme o diretor de marketing operacional da Aventis CropScience, Jurandir Paccini, a empresa faz parte do grupo Aventis, que decidiu concentrar suas atividades na área farmacêutica e então realizar a venda do segmento de agroquímicos. “Resolvemos dar exclusividade para a Bayer pois ela apresentou a melhor proposta econômica e social, dando condições de absorver o atual quadro de funcionários da Aventis. Além disso irá assegurar a continuidade da nossa empresa na liderança do mercado de defensivos”, revela Paccini. O negócio está avaliado em US$ 7 bilhões.
No que se refere ao lançamento de novos produtos, ambas estão com portfólios renovados. “Estamos cheios de produtos novos, sendo que o carro-chefe é o inseticida Fipronil, com os nomes comerciais Klap, Stanbak e Blitz. Ele atua com doses de ativos baixos, tem baixa toxidade e pode atuar nas lavouras por longos períodos”, afirmou Paccini, da Aventis. Segundo ele, o Fipronil é considerado um elemento revolucionário pois ajudou a diminuir as perdas no cultivo da cana-de-açúcar. “Ele deixa a cultura livre de aplicações por mais de dois anos”. Paccini diz que a mudança de abordagem dos defensivos se deve em grande parte à necessidade do agricultor brasileiro de competir em nível mundial, através do uso de tecnologias apropriadas que garantam o aumento da produtividade. Nos últimos anos, a Bayer trouxe para o mercado outros dois novos produtos e promete um terceiro para 2003. “Em 2000 lançamos o inseticida Calipso e para este ano preparamos o lançamento do Positron, um fungicida com um novo grupo químico. Nossas previsões é de até 2003 colocarmos no mercado um novo acaricida”, revela Ahlgrimm.
Já a Dow Agroscience, que no ano passado conseguiu fortalecer sua linha de fungicidas com a aquisição da Rohm and Haas, promete o lançamento de dois novos produtos para o cultivo de arroz: o Clincher, esperado para 2002 e um herbicida ainda sem nome, previsto para 2004. “Todos produzidos com cuidados especiais no que se refere à avaliação dos elementos inertes à formulação, menos tóxicos e que apresentam riscos menores”, detalha o diretor de marketing da empresa José Manuel Arana. Na sua opinião, a evolução para defensivos com menor toxidade sempre existiu, mas só agora se concretiza.
No que se refere ao mercado brasileiro, Arana comenta que a alta do dólar tem refletido de forma negativa nos negócios. “Essa é uma questão muito séria, pois como a matéria-prima é importada tem impacto nos preços que afetará o consumidor final”, avalia. Segundo ele, a Dow também baseia a criação de novos produtos nas demandas dos agricultores. “Mantemos constante contato com eles, realizando dias de campo para acompanhar o trabalho na lavoura e conhecer de perto suas necessidades”.
Na onda da aproximação com os consumidores, a Monsanto identificou que os produtores buscam principalmente “defensivos com embalagens mais práticas, de fácil manuseio e descarte, menos tóxicos e que possam reduzir o custo de produção com a mesma ou maior eficiência e que ainda apresentam simplicidade e flexibilidade de uso”, afirma a gerente de produto Roundup, Juliana Hosken. O Roundup, inclusive é o carro-chefe dos herbicidas da empresa, utilizado há 30 anos, em cerca de 100 países. “As características desse produto propiciam o desenvolvimento da principal tendência em agricultura conservacionista: o plantio direto”, enfatiza Juliana. Segundo ela, o principal lançamento da empresa foi o Roundup Transorb, um herbicida dessecante, que proporciona um melhor controle das plantas daninhas em situações adversas como chuva após 60 minutos e baixas temperaturas. “A Monsanto trabalha com produtos de baixa toxidade e de baixo impacto ambiental, cujo uso está associado ao PD”, completa.
O gerente de marketing da Hokko, Massaki Hassuike afirma que essas transformações estão baseadas principalmente no uso mais consciente e seguro dos defensivos tanto para quem aplica como para o meio ambiente. “Esse processo se deve em grande parte ao trabalho realizado pelas empresas de aproximação e acompanhamento da utilização dos produtos pelo agricultor. Hoje cada vez mais se investe em divulgação de métodos importantes como a tríplice lavagem, por exemplo”, diz Hassuike. A Hokko tem cerca de 100 profissionais no campo dando palestras e orientando os agricultores. Para ele, o setor de defensivos conta hoje com dois grandes diferenciais: as embalagens hidrossolúveis e a criação dos grânulos que também se diluem na água. “A Hokko tem dois produtos importantes no seu portfólio, como o Orthene, um inseticida da classe quatro muito usado em soja e hortaliças e o Top Select, muito procurado pelos sojicultores, ambos mais seguros e adaptados à nova realidade de elementos menos tóxicos”. A Hokko faturou US$ 36 milhões em 2000 e pretende fechar o ano com US$ 40 milhões.
Brasileiras da gema — Não é só de multinacionais que se faz o mercado. As empresas brasileiras de defensivos também estão no páreo, acompanhando todo o processo de renovação do setor. “As empresas estão mais abertas, mostrando mais a cara e orientando os consumidores sobre a melhor forma de utilizar os produtos, com maior cuidado no manejo, observando as instruções de segurança e melhor descarte da embalagem”, informa o diretor de marketing e negócios da Agripec, Nivaldo Carlucci. Seguindo a tendência de colocar no mercado produtos menos agressivos, a empresa está buscando o registro de diversos elementos menos tóxicos, com formulação mais “amigável”, com suspensão concentrada ou sólidos de alta concentração e embalagens de fácil descarte. Para Carlucci, o mercado está muito competitivo e muito prejudicado pela alta do dólar. “Muitos defensivos são importados e com a oscilação do dólar não sabemos ao certo onde vamos parar”, analisa. Segundo ele, o produtor está muito bem servido pelos produtos nacionais. “Também utilizamos tecnologia de última geração como os grânulos dispersíveis em água que têm substituído os líquidos, evitando o uso de solventes originários do petróleo”, revela.
Outra brasileira da gema, a Milênia é conhecida por ter o maior portfólio de produtos genéricos do mercado. “São mais de 40 entre herbicidas, fungicidas, inseticidas e acaricidas para os diversos cultivos”, orgulha-se o gerente de Planejamento e Estratégia da empresa João Eiras. De acordo com ele, a diminuição do grau de toxidade dos produtos se dá basicamente de duas formas: pela modificação dos protocolos de avaliação dos resultados toxicológicos de cada produto em razão de novas orientações científicas ou pela alteração das formulações, utilizando componentes inertes e aditivos de menor toxidade.
Nos últimos dois anos a Milênia lançou quatro novos produtos: o Orius, fungicida para o trigo; o Rimon, inseticida fisiológico; o Naja, latifolicida para soja e o Shogun, gramicida também para a soja. Para ele, o mercado está extremamente competitivo, dependente de condições climáticas e com modelos de comercialização um pouco diferente de outros mercados. “Essas condições exigem que as empresas sejam altamente especializadas para enfrentar estas adversidades”. A elevação do nível tecnológico empregado na agricultura como no caso do plantio direto é a principal responsável pelas modificações no setor. “A evolução das tecnologias de aplicação com menores volumes de calda e de produtos, as leis ambientais e as próprias empresas tiveram que sair em busca de melhorias nos seus processos fabris, produzindo defensivos que atendam às transformações”, conclui.
MIP — Essas transformações, tanto tecnológicas como de comportamento, começaram a ser notadas a partir da década de 70, com o início da produção de defensivos mais específicos e seletivos, que preservam insetos predadores e com a introdução do Manejo Integrado de Pragas (MIP) no país. “Desde a década de 50 o uso excessivo de defensivos químicos tem sido questionado, mas foi somente nos anos 70 que a filosofia do manejo integrado de pragas se consolidou e começaram as primeiras tentativas de implementação no campo”, relembra Wilson Crocomo. Essa técnica é considerada uma filosofia de trabalho que envolve o emprego simultâneo de diferentes métodos de controle populacional dos agentes biológicos indesejáveis como insetos, fungos e plantas daninhas na agricultura. “O objetivo é mantê-los numa condição não praga de forma econômica e harmoniosa com o ambiente”, explica.
O emprego do MIP na agricultura implica basicamente na avaliação do ecossistema, ou seja, o acompanhamento do crescimento populacional dos agentes biológicos, tanto benéficos quanto daninhos, presentes na lavoura, desenvolvimento das plantas, na tomada de decisão de controlar ou não os agentes indesejáveis e na escolha do método de controle a ser empregado. “Evidentemente, essa decisão de controlar ou não quase sempre recai sobre métodos que promovem um controle imediato, seja curativo ou preventivo, como o químico ou biológico. No entanto, a implementação do MIP também requer a adoção de métodos de controle que visem dificultar a ocorrência das pragas como a rotação de culturas, as variedades resistentes, uso de barreiras que segurem por exemplo pragas arrastadas pelo vento, além da cultura armadilha ou isca. Junto com eles trabalhamos o uso racional de defensivos agrícolas, apenas na medida do necessário, evitando desperdícios, perdas econômicas e impacto biológico desnecessário”, afirma Crocomo.
O MIP pode ser empregado em qualquer tipo de atividade agrícola, como irrigação, preparo do solo, adubação, controle de doenças e de pragas, caracterizando o Manejo Integrado de Culturas. Hoje, já se discute o desenvolvimento de manejo integrado da agricultura como um todo, onde todas as técnicas empregadas devem ser integradas de forma a uma contribuir para a melhoria da eficiência da outra, como preparar o solo, adubar, irrigar, de forma a minimizar a ocorrência de doenças e pragas, com o principal objetivo de reduzir custos e aproveitar melhor as respostas do ecossistema. Para Marçal Zuppi, tudo indica que mesmo com estas técnicas, por muito tempo haverá demanda por produtos fitossanitários, já que, na opinião dele, elas são altamente instáveis e suscetíveis ao desequilíbrio.
E o como está a aceitação do MIP por parte do agricultor? Crocomo acredita que há uma conscientização maior principalmente por parte dos produtores mais novos e dos que estão mais capitalizados. “Esses podem arriscar e se preocupam com a preservação ambiental e com o respeito à ecologia”, ressalta. As dificuldades aparecem na hora de modificar a mentalidade dos agricultores mais tradicionais e dos pequenos. Wilson Crocomo diz que no Brasil, o MIP está sendo mais utilizado nas lavouras de soja, café e milho além dos cítricos. “Nestas culturas a adesão é completa. As regiões mais difíceis são as que possuem fronteira, como no caso de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul, principalmente nas culturas de feijão e arroz”, completa.
O engenheiro agrônomo do Departamento de Plantas de Lavoura da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Ribas Vidal lembra que o uso do MIP é muito evidente nas lavouras com plantio direto. “Nesses casos a palha da cultura anterior reduz a população infestante e a cultura semeada na época apropriada requer menos herbicidas”, destaca.

Nova lei exige mudanças de atitudes e conceitos

A partir do dia 31 de maio de 2001, o agricultor brasileiro passou a ter o prazo de um ano, a partir da data da compra registrada na nota fiscal, para a devolução das embalagens vazias de defensivos agrícolas. A exigência da Lei 9974, de 6 de junho de 2000, é mais um indício das mudanças que estão revolucionando o setor. De acordo com Marçal Zuppi, a Lei disciplina a destinação final de tais recipientes estabelecendo responsabilidades para o agricultor, revendedor e fabricante. Aodescumprirem a Lei serão enquadrados em crime ambiental, sujeitos a multa de 3,1 mil UFIRS para o agricultor e comerciante e 6 mil UFIRS para o fabricante, além de pena de reclusão de dois a quatro anos.
O objetivo é que as embalagens não sejam armazenadas irregularmente nas propriedades ou depositadas em locais inadequados, como rios, beira de estradas ou queimadas a céu aberto. “Os procedimentos começam pela ação do agricultor, que tem a obrigação de realizar a tríplice lavagem e armazenar corretamente todas as embalagens até a devolução. As revendas além de dar orientação e treinamento, são obrigadas a receber as embalagens vazias e indicar no corpo da nota fiscal o endereço da entrega. Já os fabricantes têm que alterar os rótulos dos produtos, adequando-os à legislação, com informações sobre procedimentos de lavagem, armazenamento, transporte e devolução”, explica Zuppi. Atualmente, no país, são comercializadas cerca de 90 milhões de unidades de embalagens de defensivos agrícolas correspondendo a 20 milhões de quilos de recipientes vazios, sendo 50% de plástico. “A nova lei chega num momento em que já existem 44 unidades de recebimento das embalagens vazias, construídas em parceria com a Andef e suas associadas com órgãos representantes de classes, como engenheiros agrônomos e produtores rurais, organismos oficiais e empresas privadas’’. Até o final de 2001, somente esse programa da Andef terá colocado em funcionamento 70 unidades em todo o país, mas prevê-se um crescimento considerável deste número em função da nova legislação.

 

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