O ataque a plantas novas em culturas importantes como o milho,
trigo e soja desperta a atenção da comunidade científica e de agricultores
Os percevejos
(Hemiptera: Heteroptera) são insetos sugadores,isto é, alimentam-se
introduzindo o aparelho bucal (estiletes) na fonte nutricional. Eles introduzem
uma saliva que irá se solidificar, formando a chamada bainha alimentar ou
flange. Após, injetam uma saliva aquosa, contendo enzimas digestivas, que
pré-digerem o alimento, ocorrendo então a ingestão. Durante ou após a
alimentação pode ocorrer a infecção por microorganismos, causando manchas
típicas nas sementes ao redor da inserção dos estiletes. Dentre as espécies
fitófagas, muitos se alimentam de plantas de importância econômica, tornando-se
pragas. Normalmente, esses percevejos fitófagos comem sementes, que são
verdadeiros "pacotes" de nutrientes, com alto teor de nitrogênio.
Desta forma, esses insetos estão comumente associados com plantas no período
reprodutivo. Como as sementes constituem-se, em geral, no recurso a ser
explorado pelo homem, inicia-se aí uma competição. Em conseqüência, surge a
necessidade de se controlar esses insetos nas culturas agrícolas.
Recentemente,
temos observado a ocorrência de percevejos atacando plantas novas (plântulas)
de três culturas, tradicionalmente importantes para a agricultura brasileira como
o milho, o trigo e a soja. Os percevejos que têm demonstrado esse hábito
alimentar são conhecidos popularmente por barriga-verde (Dichelops spp.)
e por formigão (Neomegalotomus parvus Westwood).
Barriga-verde
Há
duas espécies de percevejos, conhecidos por barriga-verde. Dichelops furcatus (F.) e Dichelops melacanthus (Dallas) . Elas são muito
semelhantes. D. furcatus é maior e os espinhos dos ombros (pronoto) são
da mesma cor do pronoto. D. melacanthus é menor e a extremidade dos
espinhos é mais escura do que o restante do pronoto.
O
próprio nome indica, isto é, melacanthus, significa os cantos
melanizados ou escurecidos.
Existem
dois tipos fenológicos do inseto. Um, que é o tipo de verão, apresenta os
espinhos dos ombros mais longos e pontiagudos e o abdômen é de coloração verde.
O tipo de inverno, apresenta os espinhos pronotais curtos e o abdômen pode
apresentar coloração rosa-acinzentado ou verde, como o de verão. Esses insetos
passam por um período de inatividade (diapausa) no solo, sob restos de culturas.
Nesse período não se reproduzem e a atividade alimentar é praticamente nula.
Ambas
as espécies ocorrem na Região Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul),
Região Sudeste (São Paulo) e Centro-Oeste (Mato Grosso do Sul e Mato Grosso).
Muito provavelmente, os percevejos barriga-verde tenham uma distribuição maior
do que a aqui apresentada, e parecem estar em expansão, seguindo as culturas
nas áreas que estão sendo incorporadas ao processo produtivo agrícola.
Ocorrências
Milho — Os
percevejos barriga-verde, neste caso, a espécie Dichelops melacanthus,
têm causado os maiores danos na cultura do milho. Desde a sua constatação em
milho no início da década de 90, e de forma mais intensa a partir de 1995, a
sua importância como praga nessa cultura tem aumentado.
Os
percevejos que estão no solo, devido ao hábito de permanecerem na palhada,
atacam as plântulas de milho na região do caulículo, causando pequenas
perfurações. A medida que o milho cresce e as folhas se desenvolvem, a lesão
aumenta, formando áreas necrosadas no sentido transversal da folha, podendo
esta dobrar na região danificada. Também pode-se observar as perfurações
causadas pela introdução do aparelho bucal sugador (estiletes) do inseto. Como
resultado do dano, as plantas de milho ficam com o desenvolvimento
comprometido, apresentando um aspecto popularmente chamado de
"encharutamento" ou "enrosetamento", com amarelecimento das
folhas. Em ataques severos ocorre morte das plantas com conseqüente redução no
estande.
Em
áreas com histórico de ocorrência do percevejo barriga-verde, os produtores têm
feito aplicações de inseticidas em forma preventiva, isto é, misturando
produtos ao herbicida usado na dessecação (utilizada no sistema de plantio
direto) ou através do tratamento de sementes. Neste caso, deve-se dar
preferência ao tratamento de sementes, por ser uma aplicação mais seletiva.
Apenas em casos severos e, quando não se usou o tratamento preventivo, há
necessidade de pulverização das plantas novas.
Trigo — A
ocorrência do percevejo barriga-verde em trigo é mais recente do que a
ocorrência em milho. Na safra de 1998, vários agricultores reclamaram dos danos
do percevejo em trigo no Estado do Paraná. Na safra de 1999, os danos voltaram
a ocorrer em diversas regiões do Estado.
A
abundância populacional de D. melacanthus em trigo foi acompanhada nesta
última safra na Embrapa Soja, em Londrina, Paraná. Os percevejos aparecem a
partir da emergência das plântulas, aumentando durante o início do período
vegetativo e decaindo após o início do espigamento. A população de D.
melacanthus observada em áreas com semeadura direta é muito maior do que em
áreas onde foi realizada semeadura convencional (revolvimento do solo). Na
semeadura direta a palhada fica intacta, havendo abertura somente do sulco de
plantio. Essa cobertura vegetal favorece a manutenção e também o
estabelecimento desse percevejo nas áreas com este sistema de semeadura.
Os
danos em trigo são semelhantes aos descritos em milho. Os percevejos atacam as
plantas novas, causando enrosetamento e perfilhamento anormal das plantas, que
em alguns casos conseguem se desenvolver, mas produzem espigas menores e
permanecem verdes na época em que deveriam estar maduras e prontas para a
colheita. Um experimento foi realizado na Embrapa Soja para avaliar o impacto
do percevejo barriga verde na produção do trigo, comparando-se também os danos
em trigo cultivado em semeadura direta com a semeadura convencional.
O
número de espigas na área de semeadura direta apresentou redução média de 33,8%
quando não se utilizou controle químico (Endosulfan - 1,5l/ ha) na fase inicial
da cultura. Em semeadura convencional, onde não houve ataque do barriga-verde,
o número de espigas foi até superior quando nenhum controle foi adotado.
A
produção (ton/ha) na área com semeadura direta sem controle químico foi cerca
de 30% menor do que na área onde se utilizou o controle químico. Na área com
semeadura convencional, não houve diferença significativa na produção por
hectare quando o controle químico foi utilizado.
Soja — Esses percevejos,
desde a década de 70, têm sido mencionados como pragas secundárias da soja,
causando danos à cultura em áreas restritas e em determinados anos. Por
exemplo, na região de Palotina, no oeste do Estado do Paraná, a incidência
desses insetos tem sido mais freqüente.
Normalmente,
sua ocorrência tem se restringido ao período reprodutivo da soja, atacando as
vagens com grãos verdes. Nessa safra de 1999/2000, observou-se no norte do
Paraná, o ataque do percevejo em plântulas de soja, fato até então desconhecido.
Os
insetos foram observados alimentando-se dos cotilédones da soja, causando
amarelecimento e áreas necrosadas nos cotilédones. No momento, estudos estão
sendo conduzidos para se avaliar a extensão dos danos e, se o ataque aos
cotilédones irá comprometer a produção da planta.
Observou-se
também que os percevejos ao ficarem no solo, na palhada, alimentam-se de
sementes maduras caídas no solo.
Formigão
O
percevejo formigão, Neomegalotomus parvus (Westwood), é uma espécie da
família Alydidae, com corpo alongado, lembrando uma vespa. Os adultos são ágeis
e voadores rápidos, frequentemente atraídos por secreções, como o suor humano.
Os machos são de coloração marrom clara e as fêmeas são escuras, tendo um
abdômen maior. Embora sejam essencialmente fitófagos e associados às
leguminosas, são frequentemente observados sobre fezes e carcaças de animais
mortos, aparentemente em alimentação.
As
ninfas mimetizam as formigas, daí o nome comum de percevejo formigão. Os ovos
são depositados nas plantas isoladamente, tendo um aspecto amarronzado. das
sementes na época da maturação
Esses
percevejos têm sido mencionados como pragas do feijão comum, causando danos às
sementes através da sucção e introdução de patógenos, como a "mancha fermento".
Uma outra planta hospedeira comum desse inseto é o feijão guandu, Cajanus
cajan L. Esse percevejo é criado facilmente em laboratório em sementes
maduras de guandu.
O
percevejo formigão ocorre do Norte do Paraná em direção ao Centro-Oeste, sendo
extremamente abundante nos estados de São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do
Sul, Goiás e Minas Gerais.
Ocorrências
Em
plantas de soja — De uma maneira geral, o percevejo formigão ocorre na
soja no final do período reprodutivo, a partir do início do amarelecimento das
folhas, atingindo o pico populacional máximo na época da colheita. Devido ao
fato de preferir as sementes maduras para se alimentar, os danos causados não
afetam o rendimento. Entretanto, a qualidade da semente é afetada. Em estudos
realizados na Embrapa Soja, constatou-se que até 22% das sementes tornam-se
inviáveis, com infestações severas do percevejo. Assim, se as lavouras de soja
têm a finalidade de produção de sementes, há necessidade de se cuidar sobre a
presença do formigão, e medidas de controle devem ser tomadas.
Em
plântulas de soja — Na safra de soja 1999/2000, observou-se pela primeira
vez a ocorrência do formigão em plântulas de soja, atacando os cotilédones.
Normalmente, esses insetos alimentam-se de sementes maduras.
Em
áreas sob plantio direto, no meio da palha muitas sementes permanecem sem
germinar, servindo de fonte nutricional ao inseto. Ao germinar, a soja é
atacada. Estudos conduzidos na Embrapa Soja, revelaram que, embora os
cotilédones atacados fiquem amarelados precocemente, e apresentem manchas
escuras nos locais que o inseto se alimentou, os danos são de pequeno porte,
não se justificando medidas de controle do formigão.
Após
caírem os cotilédones, a planta consegue se desenvolver normalmente.
Entretanto, há necessidade de se monitorar a lavoura para acompanhar o
crescimento da população de percevejos, que poderá causar danos à qualidade.
Revista
A Granja – Março 2000