Edição 1 622 - 3/11/1999

 

Mar de rosas

Produtores de Pernambuco lucram ao trocar
antigos canaviais pelo cultivo de flores

Dina Duarte

Geyson Magno/Lumiar

Alex Belem/Lumiar

A usina Nossa Senhora do Carmo e os crisântemos
de Arnaldo Serpa: uma nova paisagem no agreste

Há uma transformação surpreendente em curso na paisagem da Zona da Mata pernambucana. As plantações de cana-de-açúcar estão perdendo espaço para, vejam só, belos campos floridos. Fazendas que no passado foram grandes produtoras de cana agora parecem imensos jardins de rosas, margaridas, violetas, lírios e cravos. No município de Chã Grande, em terras antes ocupadas pelos canaviais da usina Nossa Senhora do Carmo, uma das maiores do Estado em décadas passadas, florescem gladíolos. Em Paulista, na região metropolitana do Recife, os campos estão cobertos por coloridíssimas flores tropicais, como a helicônia e o bastão-do-imperador. O principal produtor é Gravatá, a 83 quilômetros do Recife. Quem conheceu a região na época da monocultura e chega ao município hoje dificilmente deixa de se emocionar. A paisagem árida e monótona, identificada com o que há de mais atrasado na agricultura do Nordeste, em alguns trechos lembra campos holandeses. A profusão de cores ocupa cerca de 40 hectares, fazendo de Gravatá o maior pólo de flores do Nordeste e o primeiro na produção de gladíolos.

Geyson Magno/Lumiar

Jovino Neri entre flores tropicais: livre da "escravidão"


Além da revolução visual, a novidade está mexendo com a economia. Só na zona da mata, a floricultura emprega 1.800 agricultores, boa parte oriunda dos canaviais. Com crescimento de 20% ao ano, Pernambuco responderá por 150 milhões de dólares do bilhão que esse setor vai faturar em 1999 no Brasil. O plantio de flores nessa região começou a tomar impulso há cinco anos. Com a falência das usinas, a terra ficou barata, atraindo uma categoria de produtores muito diferente dos usineiros. É gente de classe média, com formação superior, como o agrônomo Arnaldo Serpa, que comprou parte das terras da usina Nossa Senhora do Carmo e começou a produzir flores. "Fiz a escolha certa. Em um ano, produzo 1.000 pacotes de crisântemos e 10.000 hastes de gladíolos, o que me garante um faturamento de 9.000 reais mensais", contabiliza Serpa.

Para fazer florir a árida terra nordestina os produtores contaram com a ajuda da tecnologia. Os terrenos usados para essas plantações são irrigados. Mudas melhoradas geneticamente são cultivadas em estufas modernas, onde é possível controlar a temperatura, a luminosidade e a umidade do ar. Uma das principais vantagens para quem investe em flores está na capacidade de obter grande produtividade usando pequenas áreas. Cada hectare de canavial dá um lucro médio de 2 mil reais por ano. A mesma área, se utilizada para plantio de violetas, gera 120 mil reais. "Começamos a nos livrar da escravidão dos canaviais. Comparado ao que se emprega nas usinas, o investimento na floricultura é baixíssimo. Temos um mercado imenso para conquistar", diz o produtor Jovino Correia Neri. O faturamento dos floricultores poderia ser maior. Por enquanto, a produção é quase toda voltada para o mercado doméstico. Na hora de brigar pelo mercado internacional, a flor brasileira sofre a concorrência da colombiana, que tem excelente qualidade e a vantagem de entrar nos Estados Unidos sem pagar impostos, como parte de um programa de combate à produção de cocaína.