Quarta-feira, 23 de maio de 2001


 

CE fatura US$ 15 milhões com planta ornamental

Programa que estimula cultivo de flores está tornando o Estado exportador do produto

Antônio Carlos Vieira/Divulgação
A Cearosa emprega 55 pessoas, das quais a maioria mulheres, principalmente para trabalhar no delicado embalamento das rosas

RODOLFO ESPINOLA

 

Do primeiro plantio de flores economicamente ordenado no Ceará nos anos 20, feito por um imigrante japonês, até os dias atuais, muita coisa mudou na floricultura do Estado. Hoje, a atividade, que incorporou também o cultivo de plantas ornamentais, virou um excelente negócio. O Ceará, de importador de flores, principalmente do Sudeste, está passando, agora, a exportador.

 

Numa pesquisa realizada no fim do ano passado, fruto de parceria entre o Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae) e a Secretaria de Agricultura Irrigada do Estado (Seagri), constatou-se que 78% das flores compradas no Ceará provinham do Sudeste, principalmente de São Paulo, além dos países sul-americanos Colômbia e Equador, como informa o gerente de Floricultura da Seagri, José Rubens Aguiar. "As flores e plantas ornamentais nem esquentavam as prateleiras", continua. "O cearense gosta de oferecer flores." Este ano, a importação já foi reduzida em pelo menos 40%, "sem considerar a produção atual de rosas na Serra de Ibiapaba", completa Aguiar.

 

 
Nas serras - Conforme relata o secretário de Agricultura Irrigada, Carlos Matos, até pouco tempo o Ceará produzia flores e plantas ornamentais principalmente nas serras, no Maciço de Baturité, onde a cidade de Guaramiranga abasteceu (e ainda abastece) as principais floriculturas em Fortaleza. "O que não se produzia lá importava-se de outros Estados e até de países vizinhos", conta. "Agora já começamos a fazer o caminho inverso, exportando flores e plantas ornamentais."

 

Para chegar a esse resultado, identificaram-se, primeiramente, as áreas potencialmente favoráveis ao plantio de flores; o número de empresas de insumos ligadas ao setor e as condições de comercialização. "Tivemos surpresas", diz Matos. A produção de crisântemo de corte e de vaso no Maciço de Baturité, nos municípios de Maranguape e Tianguá, depois de uma ordenação, passou a suprir a demanda interna. "Quase não importamos mais crisântemos desde 1999", comemora Matos.

 

O crescimento da floricultura no Ceará ocorreu por causa da melhoria da tecnologia e da infra-estrutura do setor, com apoio financeiro do Banco do Nordeste, que garante financiamento para produtores ou para qualquer elo da cadeia. Em relação às novas tecnologias, depois de uma série de estudos, a Seagri optou por seguir o exemplo da Colômbia, o segundo maior exportador de flores do mundo. "Trouxemos para cá alguns dos melhores especialistas colombianos, como o consultor Júlio Cantillo Simanca", diz Matos. "Ele está percorrendo todas as propriedades produtoras de flores e plantas ornamentais do Ceará, orientando seus proprietários e técnicos."

 

 
Capacitação - Foram desenvolvidos, também, cursos de capacitação para técnicos e produtores de acordo com a demanda das comunidades locais. Atualmente, cerca de dez técnicos estão estagiando em propriedades de floricultores no Maciço de Baturité, no Sertão do Cariri, na Região Metropolitana e na Serra de Ibiapaba. "Todo esse esforço tem o objetivo de desenvolver o agronegócio da floricultura cearense em bases competitivas e sustentadas", afirmou Matos.

 

Além disso, já foram identificados vários ecossistemas, que possibilitam o cultivo de muitas espécies; as microrregiões com temperaturas amenas e constantes durante todo o ano; as áreas com solo plano e de excelente qualidade para a produção de flores, com boa disponibilidade de água, baixa incidência de pragas e doenças e a proximidade com os principais mercados importadores, como os Estados Unidos e a Europa.

 

O diretor-superintendente do Banco do Nordeste, José Arnaldo Bezerra de Menezes, acredita no potencial da atividade no Ceará e revela que a cadeia de produção de flores no Estado movimentou cerca de US$ 11 milhões em 1999.

 

"Para este ano, estima-se receita total de US$ 15 milhões, porque estamos vendo experiências bem-sucedidas, como, por exemplo, a exportação de ananás ornamentais, violetas, crisântemos, gérveras e outras variedades de flores."

 

 
Empresa especializa-se em rosa

A Cearosa, em S. Benedito, montou um sofisticado cultivo irrigado no sertão

Antônio Carlos Vieira/AE
O pacote tecnológico de cultivo foi importado da Colômbia

 

A vitrine do Projeto Flores do Ceará está em São Benedito, a 351 quilômetros de Fortaleza, na divisa com o Piauí. É a Cearosa Comércio, Exportação, Importação e Produção de Flores Ltda., empresa de capital gaúcho, dirigida por cearenses, que organizou na Colômbia um conjunto de normas para produção de rosas e o trouxe ao Ceará. São Benedito, na Serra de Ibiapaba, está a cerca de 800 metros acima do nível do mar. Sua temperatura gira entre 15 e 18 graus à noite e 25 e 32 graus durante o dia.

 

O gerente-geral da empresa, Francisco Silva Júnior, justifica a localização da Cearosa em São Benedito: "Nossos técnicos percorreram vários países produtores de flores e plantas ornamentais do mundo, em busca da tecnologia que mais bem se adaptasse às nossas condições. Eles estiveram nos Estados Unidos, na França, na Alemanha, em Israel e na Holanda, mas foi na Colômbia que encontraram um nível tecnológico com melhor adaptabilidade às nossas condições." Tudo foi importado, desde as mudas e ferramentas até seus mais reconhecidos e respeitados profissionais.

 

"A opção não poderia ter sido melhor", ressalta Silva Júnior. "Em menos de dois anos estamos trabalhando juntos e os resultados estão acima da expectativa."

 

Nessa primeira safra, a Cearosa colherá, em 1,2 hectare, cerca de 10 mil pacotes, o equivalente a 200 mil rosas, de 16 variedades, algumas das quais ainda desconhecidas do público brasileiro. Alcançou-se a produtividade de até 200 rosas por metro quadrado, superior à média brasileira, que é de 150 rosas por metro quadrado.

 

"Isso surpreendeu até os colombianos que trabalham conosco, porque na Colômbia a produção média por metro quadrado não chega a cem rosas, de acordo com dados da Associação Colombiana de Produtores de Flores." "O cultivo de rosas é um dos ramos mais complexos da agricultura irrigada", diz o consultor colombiano contratado pela Seagri, Cantillo Simanca. "Se o Ceará está provando que é capaz de produzir a mais nobre das flores, significa que estará igualmente apto a desenvolver uma agricultura de alto valor agregado." Segundo Simanca, a preocupação permanente é produzir rosas de qualidade para abastecer os mercados de Fortaleza, o brasileiro e principalmente o de outros países. As rosas dominam 26% do mercado mundial de flores.

 

 
Cuidado - Na Cearosa tudo é feito com cuidado. Desde a preparação das mudas, em estufas especiais, à manipulação dos porta-enxertos para o desenvolvimento de novas plantas, até o corte das flores e a medição das hastes, que variam de 40 a 80 centímetros, tudo é feito com esmero. Nas estufas os botões, tão-logo surgem, são protegidos com capuchos de polietileno. No pós-colheita as flores recebem um tratamento com uma espécie de preservativo constituído de açúcares, bactericidas e fungicidas.

 

"A presença de agrotóxico é mínima", explicou o diretor-técnico da empresa, Marcos Antolines, outro especialista colombiano. "Usamos a manipueira, um substrato da mandioca, para combater eventuais fungos, e o leite para afastar o oídio."