Quarta-feira, 18 de abril de 2001

 

COMEÇA A TEMPORADA DE ORQUÍDEAS

Maioria das espécies dá flor apenas uma vez por ano, mas pesquisadores querem mais

Kathia Tamanaha/AE
A espécie "Brassidium", batizada de Aloha Elizabeth

BETE MELO

 

Nesta época do ano, grande parte das orquídeas está florescendo, tanto na natureza como em ambiente artificial, exalando seu perfume característico e exibindo tonalidades que vão do tradicional lilás até o vermelho, passando pelo branco, amarelo, laranja e inúmeros matizes. Aproveitando o espetáculo, os produtores abrem a temporada de exposições, ponto de encontro dos colecionadores, que saem à procura de novidades. A capital paulista inaugurou a temporada de exposições em março, realizando a primeira mostra do setor, no Bairro da Liberdade. Outra exposição ocorreu dias 6 e 7 de abril, em Santo André, na Grande São Paulo. A maioria das orquídeas produz flores somente uma vez por ano. Para evitar a sazonalidade e atender à demanda do calendário comercial, que começa com o Dia das Mães (13 de maio), data campeã de vendas da flor, pesquisadores e orquidófilos do mundo empenham-se em conseguir variedades que floresçam o ano todo. É o caso da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), na região metropolitana de São Paulo, que começou um estudo genético da orquídea chuva-de-ouro (Oncidiyum flexiosum Sims), nativa da Mata Atlântica, no fim do ano passado.

 

A espécie pode ser dividida em dois tipos: um que floresce entre novembro e dezembro e outro que produz flores entre maio e agosto. "Com os cruzamentos, pretende-se chegar a um terceiro tipo, com capacidade de florescer ao longo do ano", explica o coordenador dos trabalhos, o professor Hiroshi Ikuta, do Núcleo Integrado de Biotecnologia da UMC.

 

Kathia Tamanaha/AE
A Magic Fire é cultivada no Orquidário Augusto Ruschi

 

Parceria - A pesquisa, que conta com a parceria de produtores de orquídeas da região, deve demorar dez anos para ser concluída e está dividida nas fases de laboratório e de campo. "Existem 350 variedades da O. flexiosum no Brasil e seu mercado está em franca expansão", diz Hirata, que também irá testar produtos específicos para conseguir o prolongamento da florada, que hoje dura em média dez dias. Outra variedade da O. flexiosum, a pingo-de-ouro, nativa do Alto Tietê, produz uma flor amarela muito utilizada em arranjos e parte de sua produção é exportada para o Japão.

 

Existem 35 mil espécies de orquídeas no mundo, além de mais de 120 mil híbridos, criados a partir de cruzamentos. Na natureza, essas flores são todas perfumadas, mas, em ambiente artificial, podem perder essa característica. Para conseguir cores diferentes, cruzam-se uma a duas espécies e até três gêneros. "Do cruzamento de três a quatro gêneros nasce uma flor especial", explica o biólogo Luiz Walcyr Barreto, do Centro Técnico de Pesquisas Biológicas da Fundação Abraham Kasinski, em Mauá (SP), entidade que se dedica à pesquisa e à venda de orquídeas. Este é o caso da Cathleia larissa, lilás com splash flameado, registrada na Inglaterra com os nomes Lc Collor Guard. Há, ainda, a Lc Abraham Kasinski, de cor salmão, e a Lc Ivone Kazinski, lilás. De acordo com Barreto, as orquídeas de cor vermelha, amarela, verde e pintadas são modismo.

 

Segundo o biólogo, não existem dados reunidos sobre a produção e o mercado de orquídeas. "Uma coisa é certa: a produção é muito grande, mas a demanda pela flor está retraída, pois existem muitos pequenos produtores e o mercado não absorve toda a produção", diz. Soma-se a isso o fato de o florescimento ocorrer de maneira sazonal, com período de pico entre março e maio, época em que toda a produção é vendida, por causa do Dia das Mães. "Nessa data, vende-se todo o estoque", diz Barreto, que aponta, pela ordem, o Dia dos Namorados, das Secretárias e o Natal como outros períodos bons para o comércio de orquídeas. O preço da muda varia de R$ 5,00 a R$ 15,00 no atacado. Mas os colecionadores chegam a pagar R$ 5 mil a R$ 50 mil por planta. Neste caso, desde que haja uma única planta da espécie. "Se multiplicar a planta, o preço cai."

 

Kathia Tamanaha/AE
Moda: variedades amarelas são fruto de cruzamento

 

Acordo - Em 1981, Barreto conheceu o antigo dono da Cofap, Abraham Kasinski, cujo hobby era cultivar orquídeas. "Fizemos um acordo e comecei a cuidar da coleção particular dele, que, na época, ficava na fábrica, em Mauá", conta. Ele sugeriu a criação de um centro de pesquisa, que foi montado em um sítio da família, na própria cidade. A idéia de Barreto era a preservação das espécies em extinção, a criação de orquídeas perfumadas e com cores diferentes, além de conseguir flores em épocas diferentes.

 

Atualmente, o centro produz de 10 mil a 20 mil mudas, além de plantas floridas por ano, vendidas entre R$ 18 e R$ 35 reais a muda, in vitro, e R$ 1,50 a muda clonada. Também exporta, em pequena quantidade, para Japão, Estados Unidos, Israel, Canadá e Alemanha. "O grande problema é a falta de agilidade, por conta da burocracia, em especial a complicação com a documentação", critica. O preço, no mercado internacional de mudas adultas, para florir, é de US$ 10,00.