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Quem nunca enfrentou uma verdadeira batalha na hora de convencer os pequenos a escovarem os dentes? Para muitos pais, essa rotina diária já é um desafio considerável. Imagine, então, quando somamos a isso as barreiras da hipersensibilidade sensorial e das especificidades do Transtorno do Espectro Autista (TEA). É justamente sobre essa realidade complexa que se debruça um estudo desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e Saúde (PPGES) da Uesb, revelando que as abordagens convencionais de educação em saúde bucal não atendem às necessidades dessas crianças.
A pesquisa foi conduzida pela cirurgiã-dentista Maria Vitória Araújo e realizada no Núcleo de Autismo da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Jequié. O estudo acompanhou 31 crianças e demonstrou que as orientações verbais e demonstrações técnicas, pilares do modelo tradicional, não foram suficientes para melhorar a higiene bucal, uma vez que os índices de placa bacteriana permaneceram criticamente elevados após a intervenção.
O estudo contou com a orientação do professor Sérgio Donha Yarid, que colaborou para que a análise científica se transformasse em uma ferramenta de melhoria da assistência à comunidade. A investigação destacou que o sucesso do cuidado odontológico para crianças com TEA exige um olhar que ultrapasse a técnica de escovação. Fatores como a hipersensibilidade sensorial a texturas e sabores, limitações na coordenação motora fina e o contexto socioeconômico das famílias compõem um cenário complexo que exige adaptações severas.

Caminhos para a inclusão – A parceria com a Apae de Jequié foi um dos diferenciais do projeto, permitindo que a coleta de dados ocorresse em um ambiente já familiar e seguro para os participantes. “A pesquisa busca compreender uma necessidade concreta da população e desenvolver estratégias que fortaleçam a promoção da saúde, a prevenção de doenças e a inclusão no cuidado, princípios que fazem parte da formação e da produção científica do Programa”, defende a pesquisadora.
Diante da ineficácia do modelo testado, o projeto agora avança para uma nova fase. Em seu doutorado, Maria Vitória pretende desenvolver uma tecnologia educacional adaptada, abandonando as abordagens puramente verbais em favor de ferramentas mais acessíveis e individualizadas.

Sobre a motivação para o estudo, Maria Vitória explica que a escolha do tema nasceu de uma inquietação profissional somada ao desejo de gerar impacto social real: “Não fazia sentido apenas identificar um problema. Era necessário contribuir para a construção de soluções que pudessem beneficiar essas crianças e suas famílias”.
Para a pesquisadora, esse é o papel central da universidade pública e gratuita. “Acredito que essa seja uma das maiores contribuições da universidade pública: produzir conhecimento científico que dialogue com a realidade local e que possa ser transformado em benefícios concretos para a população”, finaliza Maria Vitória.
Confira essa e outras pesquisas no site do “Ciência na Uesb”