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Se você já ouviu falar em BTS, “Guerreiras do K-pop” e “A lição”, já percebeu que o interesse pela cultura asiática – e, em especial, a sul-coreana – tem sido crescente nos lares brasileiros. De crianças e adolescentes fãs de k-pop (pop coreano) a adultos fãs de doramas (dramas asiáticos em formato de filme ou série), o consumo de mídia asiática se espalhou globalmente, em grande parte graças à internet e aos serviços de streaming. Dentre essas, se destacam os doramas coreanos, chamados de k-dramas, que ganharam público cativo no Brasil, abrindo as portas para um diálogo intercultural que pode ampliar a visão de mundo do público.
Mas o que explica essa conexão tão profunda entre países em lados opostos do globo? Essa é uma das perguntas que o pesquisador Mateus Freire buscou responder em sua pesquisa no Mestrado em Letras: Cultura, Educação e Linguagens da Uesb, sob a orientação da professora Fernanda Modl. O estudo aborda os doramas não apenas como um subgênero das séries televisivas, mas sim como uma mídia com linguagem própria. “Buscamos investigar de que maneira a linguagem e a cultura dos dramas coreanos servem de entrada para diálogos interculturais”, explica o pesquisador.
Essa linguagem traz imagens muito próprias, com significados profundos dentro da cultura coreana. “Vemos isso no cuidado representado nas cenas de guarda-chuva, no simbolismo especial da árvore de cerejeira, na personificação maligna do caminhão branco, na tradição de compartilhar refeições, no zelo dos ritos de pós-morte”, explica Mateus. Isso tudo chama a atenção do público, que vê nas produções uma porta para culturas diferentes da própria. “O que encanta os fãs são justamente essas diferenças culturais e narrativas que não são vistas nas demais séries”, completa.

Além disso, as produções costumam abordar temas universais, capazes de gerar identificação com pessoas de diversos locais do globo: problemas com a família, violência nos ambientes escolares ou de trabalho, crises de identidade e diversos outros. “Ao abordar essas temáticas, os seriados deixam lições valiosas e nos conduzem não somente a nos identificar com as personagens, mas também a nos libertar de situações traumáticas como eles fazem ao longo da narrativa”, comenta o pesquisador.
Um aspecto interessante da conexão entre os doramas e os dorameiros (fãs de doramas) é o modo como esses fãs constroem sua identidade a partir desse gosto: da comida consumida pelos personagens aos acessórios e objetos apresentados, tudo vira objeto de desejo. “Para um dorameiro, certas coisas aparentemente comuns se tornam especiais graças aos dramas e isso prova como eles têm contribuído para a construção de identidades”, comenta Mateus.

A onda coreana – Esse rápido crescimento da mídia sul-coreana ao redor do mundo ganhou o apelido de “Onda coreana”. Através dela, a cultura sul-coreana é divulgada por meio de séries, filmes, comidas, produtos de beleza e muito mais. No Brasil, ela chegou por meio dos fansubs, grupos de fãs que, voluntariamente, legendam e distribuem obras que, de outra forma, não chegariam ao país. “Antes, isso era feito por meio de DVDs e, com a expansão da internet, blogs foram criados para a divulgação das séries e se tornaram um ponto de encontro virtual entre os dorameiros”, explica Mateus.
Agora, os doramas atingem o globo por meio dos serviços de streaming, facilitando o acesso dos fãs e levando a “Onda coreana” a níveis nunca antes vistos. “Atualmente, muitas pessoas se interessam pela música coreana, assistem aos dramas facilmente pela Netflix e outros streamings, viajam ou desejam muito viajar para a Coreia do Sul, são produtoras de conteúdo dessa temática, querem aprender o idioma coreano e até assistem dramas de forma conjunta em shoppings”, finaliza o pesquisador.
Confira essa e outras pesquisas no site do “Ciência na Uesb”