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Aluno do Mestrado em Memória: Linguagem e Sociedade da Uesb, Roberto Solano foi contemplado com o segundo lugar no Ethnographic Poetry Competition, competição organizada pela Society for Humanistic Anthropology (SHA), desde 1986. O prêmio incentiva a produção de uma etnografia poética, uma pesquisa que une a sensibilidade da poesia às metodologias antropológicas.
Roberto inscreveu o material “The Potato Procession” (A Procissão da Batata), derivado da pesquisa que realiza na Uesb. No trabalho, o estudante traz referências aos haylli, cantos agrícolas das camponesas quechuas nos Andes. Durante o verão, essas camponesas intercalam o trabalho com cantos espontâneos “que contêm referências afetivas à batata andina, o que serve de incentivo ao trabalho comunitário”, explica o pesquisador. O material busca, ainda, descrever os sentimentos desses momentos.
A professora Ana Elizabeth Alves, orientadora da pesquisa que deu origem ao material premiado, acredita que a conquista é importante para expandir as descobertas acadêmicas para além dos muros da Universidade. “[A premiação] promove o intercâmbio acadêmico e cultural e fortalece o diálogo entre diferentes formas de produção e socialização do conhecimento”, comenta.
O mestrando valoriza um ponto de vista decolonial em sua pesquisa, que pode ser visto desde a escolha do tema até o modo de tratá-lo. Para ele, o reconhecimento vindo pela premiação serve como incentivo para suas tentativas de “criar um espaço de diálogo e solidariedade com esses contextos de resistência cultural que, em cada gesto de cuidado alimentar, também salvaguardam a vida de todos nós”, comenta.

A pesquisa por trás da poesia – A pesquisa que deu origem ao trabalho premiado é a dissertação de mestrado do pesquisador, intitulada “Etnomemória da batata: comércio agrícola, resistências tradicionais e lembranças rituais das camponesas huancas (Peru)”. O estudo se aprofunda na riqueza ambiental e cultural dos povos do campo “destacando os saberes, as práticas ancestrais construídas em torno do cultivo tradicional da batata”, explica Ana Elizabeth.
O trabalho ainda mostra que a invasão colonial do século 16 destruiu a relação cultural e afetiva das comunidades quechuas e aimaras com a alimentação. Além disso, o trauma gerou estruturas racistas e deturpou os valores comunitários, “moldando políticas de extrativismo agrícola e desigualdade social”, pontua Roberto.
A partir de um contexto decolonial, o estudo analisa os saberes ancestrais das mulheres quechuas. O pesquisador entende esses saberes “como um tipo de consciência histórica, social e alimentar das camponesas huancas, que permite um conjunto de práticas comunitárias e tradicionais de agricultura que lhes conferem uma certa soberania alimentar”, explica.
Nesse cenário, as camponesas quechuas, aimaras e de Huancayo emergem como as únicas a manter viva uma ligação afetiva com as batatas (papas) nativas, o que lhes permite manter esses cuidados comunitários e familiares do mundo camponês. O pesquisador defende ainda que investigações desse tipo podem ajudar a ciência a criar estratégias sustentáveis para a segurança alimentar e a agroecologia. “[O estudo] permite valorizar a ancestralidade agrícola como um conjunto de conteúdos importantes que possibilita a conceção de estratégias científicas para abordar questões de segurança alimentar”, conclui.