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Depois de um caso de feminicídio, uma pergunta costuma aparecer nas conversas, nas redes sociais e até durante investigações e processos judiciais: “O que ela fez para isso acontecer?”. Embora pareça inofensiva para muitas pessoas, essa forma de pensar pode esconder um grave problema: a tendência de culpabilizar a vítima pela violência sofrida.
Foi com o objetivo de compreender como esse processo acontece que a advogada e especialista em Ciências Criminais, Fadja Fróes, desenvolveu sua tese para conclusão do Doutorado em Mémoria: Linguagem e Sociedade na Uesb. Com orientação da professora Tânia Rocha, Fadja investigou como discursos presentes em processos judiciais e nas redes sociais contribuem para transferir a responsabilidade do crime da pessoa que o cometeu para a mulher que foi assassinada.
A pesquisa teve seu ponto de partida ainda quando Fadja cursava o Mestrado na Uesb e estudava casos de feminicídio ocorridos no Estado da Bahia entre os anos de 2015 e 2018. A pesquisadora analisou os interrogatórios dos acusados, bem como os depoimentos das testemunhas. “Chamou nossa atenção as narrativas que eram construídas pelos agressores para tentar justificar a prática do feminicídio, colocando as mulheres como responsáveis pelas próprias mortes”, relata.
A partir dessa observação, a advogada decidiu verificar como isso ocorria também na sociedade e como as justificativas dos autores dos crimes impactavam o meio social. O ambiente digital foi o escolhido para essa fase do estudo, mais especificamente perfis de veículos de notícias no Instagram.

Resultados – A análise dos comentários publicados no Instagram mostrou que a culpabilização das vítimas de feminicídio costuma seguir três padrões principais. O primeiro responsabiliza a mulher por suas escolhas pessoais, com argumentos de que ela “sabia com quem estava se envolvendo”. O segundo associa o crime ao término do relacionamento, sugerindo que a vítima “provocou” o agressor ao decidir se separar. Já o terceiro busca desqualificar a mulher com base em seu estilo de vida, comportamento ou relações pessoais.
Ao realizar a sobreposição das justificativas dos acusados e dos comentários de usuários do Instagram, o estudo evidencia que existe uma validação social do crime de feminicídio: o que os agressores dizem nas defesas é exatamente o que as pessoas escrevem nos comentários. “Quando a pessoa escreve ‘ela procurou’, ‘ela sabia quem ele era’, está não apenas tirando a responsabilidade daquele agressor específico, mas de todos os homens. Reforça-se, com isso, que a segurança da mulher depende exclusivamente do seu comportamento, não passando pelo respeito masculino”, aponta a pesquisadora.
Tudo isso alimenta uma cultura que dificulta o enfrentamento desse tipo de crime. O medo de ser julgada ou desacreditada faz com que muitas vítimas deixem de denunciar seus agressores, permanecendo em situações de violência e aumentando o risco de um desfecho fatal. Além disso, o julgamento moral pode afastar mulheres dos serviços de proteção e provocar impactos psicológicos, como ansiedade, depressão e isolamento.
Os efeitos desse comportamento também atingem toda a sociedade. Segundo a pesquisadora, o ato de culpabilizar a vítima fortalece a ideia de que os homens têm direito de controlar a vida, o corpo e a liberdade das mulheres, gerando uma normalização do machismo. Por sua vez, contribui para a suavização da percepção pública sobre o crime de feminicídio, incentivando novos agressores.

Como mudar essa realidade? – Ao investigar essas narrativas, a pesquisa amplia a compreensão sobre os mecanismos que sustentam a violência de gênero e convida a sociedade a refletir sobre como combate, fala e reage ao tema. Para Fadja, cada um pode fazer a sua parte e ajudar a mudar essa realidade que mata milhares de mulheres todos os anos no Brasil: “A mudança começa na desconstrução de hábitos diários e se estende para a mobilização social. Então, quando souber de uma agressão, nunca pergunte ‘o que ela fez?’, mas sim ‘por que ele a agrediu?'”.
A pesquisadora defende uma educação voltada, desde cedo, à igualdade, rompendo com a masculinidade tóxica – que ensina aos meninos a posse e a agressividade como provas de virilidade – e com a submissão romântica imposta às meninas. Além disso, ressalta a importância de a população utilizar as redes sociais para divulgar conteúdos úteis e educativos sobre o tema, ao invés de engajar em posts preconceituosos, violentos ou que exponham a vida íntima de vítimas.
Para registro e encaminhamento de denúncias aos órgãos competentes ou receber orientações sobre leis, direitos das mulheres e serviços da rede de atendimento, ligue 180. Se ouvir ou presenciar qualquer situação de violência contra a mulher, acione a Polícia Militar, por meio do 190.
Confira outras pesquisas no site do Ciência na Uesb