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Farofa de feijão com taioba integrou o cardápio do estudo (Foto: Acervo da pesquisa)
A imensa diversidade de plantas com potencial alimentício e medicinal, a exemplo da famosa ora-pro-nóbis, tem despertado a atenção de pesquisadores da Uesb. Mais do que simples vegetais, essas espécies carregam saberes ancestrais que, ao longo do tempo, acabaram esquecidos pela sociedade. Dispostos a mudar esse cenário, dois estudos desenvolvidos na Instituição decidiram trazer essas plantas de volta aos holofotes, mostrando seu impacto prático tanto na qualidade da alimentação escolar quanto na inovação do ensino de Ciências.
O estudante de Mestrado em Genética, Biodiversidade e Conservação, Danrlei Soares, voltou seu olhar para as chamadas Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs). A pesquisa, desenvolvida em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da graduação em Ciências Biológicas na Uesb, campus de Itapetinga, investigou a inserção dessas espécies na merenda escolar do município. O estudo teve como objetivo incentivar o consumo de alimentos nutritivos e de baixo custo, além de estimular os estudantes a compartilharem esse conhecimento com suas famílias.
Para além dos benefícios nutricionais, Danrlei ressalta o forte impacto social e econômico da proposta. “Temos ainda que destacar o potencial das PANCs no empreendedorismo como opção de compor a renda de agricultores familiares. Então, as PANCs podem contribuir para a segurança alimentar e financeira da população”, destaca.

Os pratos feitos com PANCs foram testados e aprovados em escolas de Itapetinga (Foto: Acervo da pesquisa)
A pesquisa saiu da teoria e foi aplicada na rotina de duas escolas públicas e uma particular, introduzindo no cardápio espécies como a taioba (Xanthosoma sagittifolium), língua de vaca (Talinum paniculatum) e ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata). Transformadas em receitas criativas, como farofa de feijão com taioba, arroz com língua de vaca e torta de ora-pro-nóbis, as plantas passaram pelo teste e foram aprovadas por 169 pessoas em sessões de degustação.
O resultado foi uma excelente aceitação em todas as instituições. “Com a pesquisa, vimos que agrada o paladar da maioria dos estudantes. Então, concluímos que o esquecimento é devido a popularização de muitas outras hortaliças menos nutritivas e, muitas vezes, exóticas”, afirma o pesquisador, desmistificando a ideia de que esses vegetais não agradam o paladar.
Planta que educa – Esta mesma riqueza botânica ganhou uma nova perspectiva pedagógica nas mãos de Rosalina Evangelista, no Mestrado em Educação Científica e Formação de Professores, no campus de Jequié. O foco de seu estudo foi o uso de plantas medicinais no ensino de Ciências para estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Rosalina levou os vegetais para a sala de aula não apenas pelo viés fitoterápico, mas como uma estratégia didática e atraente para o ensino de Botânica, abordando temas como morfologia, fisiologia, reprodução, toxicidade e eficácia dos vegetais.

Horta medicinal e oficina de produção de sabonete com PANCs (Fotos: Acervo da pesquisa)
Segundo Rosalina, a inserção do tema no currículo escolar é uma forma de promover o resgate cultural e valorizar os saberes populares construídos pela ancestralidade. “Esse processo de transmissão que se deu pela oralidade eleva o conhecimento popular a um patamar de respeito científico, permitindo que o estudante compreenda que a ciência moderna, muitas vezes, nasce da observação e da aplicação da sabedoria oriunda de comunidades quilombolas, indígenas, ribeirinhas etc.”, explica.
Defendendo que “a escola deve atuar como o elo que une a teoria da sala de aula à prática da comunidade, incentivando o diálogo entre as gerações”, Rosalina enfatiza que a EJA exige estratégias que valorizem a bagagem de vida dos alunos. Em sua pesquisa, isso se materializou de forma colaborativa por meio de rodas de conversa, aprendizagem baseada em problemas, projetos interdisciplinares, estudos de caso, oficinas temáticas, emprego de tecnologias educacionais e a criação de herbários e hortas escolares.
A proposta ganhou vida com atividades práticas nas quais os estudantes se envolveram diretamente em todas as etapas, associando a teoria acadêmica à experiência sensorial. “Realizamos oficinas de produção de sabonetes, onde eles colocaram a mão na massa, e de chás, culinária com utilização de PANCs, palestras, aulas práticas para identificação dos órgãos vegetais a partir da manipulação de espécies botânicas, dentre outras estratégias”, conclui Rosalina.
Confira esta e outras pesquisas no site do “Ciência na Uesb”