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E se, de repente, uma cidade tropical conhecida pelas praias e pelo calor enfrentasse uma mudança climática drástica e permanente? Essa é a premissa de “Recife Frio” (2009), curta-metragem de Kleber Mendonça Filho que integra a lista de filmes obrigatórios do Vestibular Uesb 2027.
Ambientado em um Recife ficcionalmente transformado por um frio súbito, o curta acompanha a rotina da cidade após a queda de um meteoro e a aparição misteriosa de pinguins nas praias. A narrativa é conduzida por um narrador de um suposto programa de TV argentino, que apresenta entrevistas, imagens de arquivo e reportagens para construir um retrato ao mesmo tempo absurdo e profundamente real.
Com estética do falso documentário para construir uma crítica social, o filme evidencia como eventos ambientais extremos afetam de maneira desigual diferentes grupos sociais, abordando conceitos como racismo ambiental e desigualdade urbana. Para quem ainda não assistiu, “Recife Frio” está disponível gratuitamente no site do Itaú Cultural Play.
Para trazer mais camadas na leitura dessa obra, o projeto “Cinema: Eis a Questão” convidou professores e especialistas para comentar o filme, analisando seus aspectos importantes. Os convidados foram Claudio Carvalho, professor de Direito Ambiental e Urbanístico da Uesb; Felipe Gama, professor do curso de Cinema e Audiovisual da Uesb; e Pamela Rodrigues, mestranda em Memória: Linguagem e Educação na Uesb.
Para Claudio Carvalho, “Recife Frio” tem a mesma importância para o cinema que “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado. O professor destaca que a obra evidencia a questão do racismo ambiental. “De forma desigual, as questões ambientais climáticas afetam de maneira desproporcional, sobretudo, a população negra”, explica.
Ele cita o momento em que uma família de classe média alta expulsa a empregada doméstica do quarto para que o filho ocupe o cômodo mais quente do apartamento. “Essa dinâmica de como as mudanças climáticas, de fato, é um risco invisível, imperceptível, tanto que a mudança ocorre em horas. Mas ela não afeta todos da mesma forma”, salienta.
Felipe Gama classifica “Recife Frio” como um falso documentário, em que a ficção intensifica questões reais ao transformar a cidade em personagem. Para ele, a cena mais marcante ocorre em um apartamento em Boa Viagem. Com o frio, o abafado “quarto da empregada” vira o local mais cobiçado. “É como se ele invertesse a cidade de Recife, mas não para transformar Recife numa outra experiência; é para intensificar as relações e as crises existentes na Recife atual”, analisa.
Pamela Rodrigues chama a atenção para a mistura de gêneros do curta, que intercala telejornalismo, documentário e comédia. “A gente entende essa sátira, porque ele fala de uma cidade turística muito quente, que de repente se transforma numa realidade muito fria, quase congelante”, pontua. A pesquisadora destaca ainda o contraste entre a vida nas ruas vazias e os shoppings lotados, “uma metáfora visual muito interessante para o individualismo, para o consumo”.
Já no final do filme, a figura de Lia de Tamaracá surge como um ponto de luz. “Ela é o sol do filme. A gente finaliza o filme vendo uma Recife não mais fria, mas congelada. É uma visão bastante pessimista desse futuro distópico, mas a semente tá plantada”, avalia Pamela.
A conversa não para – Além dos vídeos acima, o projeto “Cinema: Eis a Questão” realizará lives especiais no canal oficial da Uesb no YouTube, para debater todos os filmes selecionados para o Vestibular Uesb 2027. Os encontros acontecem de 13 a 15 de outubro, a partir das 19 horas. O bate-papo sobre “Recife Frio” será no último dia da programação.
Todo o projeto é coordenado pelo Programa Janela Indiscreta Cinema e Audiovisual, com apoio da Pró-Reitoria de Graduação da Uesb. Mais informações, entre em contato pelo e-mail janelaindiscreta@uesb.edu.br ou pelo telefone (77) 3425-9330.